26.5.12

Asana

Procurou caneta,
lápis, borracha,
cadernos, livros,
apontador, giz de cera,
caneta colorida, estojo,
o uniforme, sapatos,
meias, luvas,
calças, casacos...

Escola.


Procurou caneta,
caderno grande,
casaco fino,
tênis rasgado,
blusa qualquer.

Faculdade.


Não procurou nada.
Dormiu até mais tarde.
Não ouviu a voz de nenhum professor.
Não escrever nada pra amanhã.

Está de greve. De pensamentos.

Papel machê


                                                                                                       "We all deserve to die"
                                                                                                                                        Sweeney Todd


Ia escrever alguma coisa
Porém, esqueceu.
Podia ser a ideia mais espetacular da sua vida
porém, foi esquecida.

Não há segredo que lhe bata à porta
que ela não despreze.
Não há dia melhor que o outro
que ela não subjugue ao futuro.

Desde quando o céu está em cima?
Desde quando o chão aceitou mesmo ficar por baixo?
Não há alto, nem baixo
verdadeiramente
tudo é circular.

Às vezes, ela ouvia a voz falar:
-Não vá por aí, você pode se machucar...
E respondia:
-Eu sei, é por isso que uso esse caminho.
A vida machuca.

Hoje o céu azul. Amanhã, vermelho.

Desde quando em cima?
Desde quando por baixo?
Nada mais aconteça.
Nem amanhã, nem hoje, nem ontem.

Morrer é não-agir.
Vou dormir.


24.5.12

De janelas fechadas


Agora que a primeira poesia saiu
a que estava ainda crua
cheia de clichês e repetitiva...
Já se foi, já me deixou.

Agora, eu posso sentar, relaxar a coluna,
tirar os sapatos, afrouxar as roupas,
arrumar o travesseiro, apagar as luzes
...
deitar... chorar... lembrar...
sentir cada pedaço de você
que ainda sobrou em mim...
e que eu achava
que tudo era besteira, neurose minha,
e que ia tudo embora
sem reviravoltas.

E eu já não sei o que é verdade
o que é mentira
Já não sei quem são os amigos
se é que os tive
Já não sei quem são os inimigos
se é que os tenho
Já não sei quem é quem
e desisto. Sério.

Estou cansada de ser chicoteada.
Estou cansada de ver e não falar nada.
Estou cansada de mim, de todos, de tudo.
Estou cansada.

Choro em casa
deitada e coberta
travesseiro sobre os olhos
quieta e encolhida...
sem mísero barulho
sem lágrima secada por outro alguém
que não por mim.

Triste? É, estou triste.
E acho que sempre estive.
As lágrimas me enforcam...
o sofrimento em silêncio:
na noite me escondo
na dor me suplicio
na manhã... não desejo despertar.

Toda essa bílis negra, esse fel maldito
esse "lado negro" - como você mesmo fala -
existe. Existe em mim
e em todos que fingem estar sempre lindos, vencedores, maravilhosos.

Minhas lágrimas não tem cura.
Meu deserto está do lado de fora.
Amar? Que é amar?
Amar é sofrer. Amor é quando dói
dói tanto que é preferível morrer:
mas que morte terrível
é esta: morrer de amor.

Vai-se a noite sem fim
morrer de manhã
vou-me eu, dormir, morrer... quem sabe?

vou embora, sonhar, esquecer, me afogar em sonhos
impossíveis.

Amanhã, quem sabe...
Talvez... outrora...

Aurora noturna


"De todas as poesias, a mais bela é o seu olhar."

Amor, meu mais querido amor
Ó príncipe, eterno em meu peito
Ó pequeno deus, sentado em seu trono
(no meu pequeno coração)
Ó criança, minha pequena criança risonha
que tanto amo...

Tantos epítetos, quantas saudades
Nem em um milhão de abraços que durassem um milênio cada
Nem em mil milênios em seus braços
Acabariam com essa falta, esse desejo, essa lacuna...

Dias e noites em suspenso
sem amor, sem paz: mil incômodos
de saudade, de preocupação, de dores...
Dias nublados... escuros... dias noturnos...
Noites embaçadas... nervosas... insones...

Mas hoje o Sol nasceu
a Lua se foi
o Dia voltou
a Luz me envolveu, outra vez, em seus amados abraços...

E quando tudo era noite, eu chorei
me desesperei... mal conseguia respirar
em meio às lágrimas
em meio às lembranças
em meio a tanto... dentro desse nada
que era a tua ausência.

Eu rezava, pedia, implorava
uma notícia, mesmo que vaga
que me lembrasse seu nome
e por quais caminhos você andava...
E quantas ruas passei, quantos beijos no vento enviei
quantas preces eu fiz, quantos sonhos tive:
e nunca te encontrei.
Passei assim a olhar o futuro, o longe, o além
procurando sua imagem tão fugidia
que talvez, eu pudesse me apegar.
Não achei... e a dor me oprimia.
Mesmo agora, nessa hora bendita
a mais escura do mundo
a mais iluminada para mim,
ainda não encontrei você
ainda preciso parar
e respirar

por que tudo parece um sonho
por que tudo parece um sonho
por que você parece um sonho...

tudo ainda parece sonho.
Agora é a hora que eu estava esperando
há meses, talvez anos... séculos
para consertar algumas coisas erradas no meu caminho.
Pois então, tudo começa agora
Pois então, tudo começa com a sua volta
Com o seu novo nascimento:
sua renovação também é minha.

Ah! O que o verdadeiro amor não faz!
Porque, esse amor é o que há de verdadeiro em mim.
Tudo o mais é resto, tudo o mais é ilusão.
Tudo o mais não existe.
Esse amor é que me move.

E o que eu mudei
se tive forças para seguir
foi só e apenas por a esse amor servir.

E quando se ama, meu querido, não há que se esperar recompensa.
Eu não espero. Eu só amo. Amo só.

E como quem espera o sol aparecer no horizonte
para içar velas e entrar de vez no mar,
essa sou eu.
Velas içadas, tripulação embarcada,
avante! Avante, companheiros!

Não quero mais essa confusão interior.
Não aceito mais sombra, nem mentira.
Não aceito mais escuridão que venha de mim.
E como é tudo na luz, tudo na verdade
São as cartas na mesa, os pratos limpos
A cara dada à tapa, a verdade na ponta da língua
palavra por palavra.

O sol renasceu, voltou a caminhar pelas ruas do meu coração.
Era meia-noite, todos se esconderam
mas eu saí na rua pra olhar o sol:
Sol à meia-noite, não me deixe só.
Sol no meio-dia, não me abandone.
Sol de todos os sóis, tu que és o mais perfeito
dentre os mais perfeitos,
príncipe mais belo, rei do meu coração
não me abandone, eu imploro
não me deixe só, é o que te peço.


Todos nós renascemos. Que esta seja mais uma.
E que façamos valer a pena.

Não posso te dar minha mão direita
não posso, nem ao menos, te olhar de mais perto
não posso nada, nem querer-te por um segundo
Não posso.

Mas posso sonhar. Permito-me ser tua
nos mundos mais felizes que esta Terra estranha.
Permito-me ser puramente tua
em outras vidas, outros mundos...
Sonhos... Meus sonhos sagrados...
Que ninguém julga, condena... nem sabe.

Meus sonhos, meus segredos: meus desejos.

O Sol voltou a brilhar pros meus olhos
já posso sorrir, a noite se foi
já posso dormir, a luz renasceu

se eu fosse criança, hoje seria natal:
hoje meu presente é você.
Para sempre, meu presente, é teu olhar.

Não há poesia mais bela que teus olhos.
Não há palavra mais bela que te descreva.
Não há amor mais puro, nem desejo mais sincero
que possa fazer moradia em meu peito, em minh'alma...
que esse amor... esse amor solitário
por ti.



Amor. Para sempre.

23.5.12

Angst


Abandonei-me
mas tenho um ritmo de escrita que não me abandona
e se desenrola, se desenrola
dentro de mim.
Mas como posso escrever? Meditar?
Abandonei-me em mim.
Mas tenho esse ritmo incontrolável
que só eu sei, que só eu sei
como se desenrola dentro de mim.
Não sei cantar, não sei tocar
não sei rimar, não sei gritar.
Abandonei-me... de mim.

Vejo o mundo além do mundo
vejo essa cobiça além de mim
vejo o céu azul impuro
vejo os sapos coaxarem no jardim
vejo a lua escura e o sol estranho
como um sol atrás do sol atrás do sol
escondendo o sol verdadeiro
inexistente a todas as coisas.

Abandonei-me de mim.
E onde está o ritmo agora
se as palavras não rimam entre si
e tudo é branco
como um quarto silencioso desesperador
e tudo é limpo
como uma área desinfectada
e tudo é cristalino
e tenho medo porque a impureza vem de mim
pro mundo.

Abandonei-me de mim
ontem e hoje e amanhã
nada existe
porque o passado é futuro
o futuro é o presente
e o presente é o agora imortal e decadente

o agora é a imanência e a desistência

Abandonei-me de mim.

Mas onde se esconde aquela antiga ideia
de que a morte é a morte é a morte é a morte?
Abandonei-me de mim à repetição de tudo
e não vejo mais nada além de nenhuma coisa
Obstante isso, as flores crescem, as casas nascem, as crianças dormem...

Apavoro-me em não-existir.

Preciso correr contra o fim
derrapar na estrada maligna e escrever sob a poeira do universo.
Não sei.

Möglichkeit...
Minhas palavras, meus pesadelos.
E, desde quando, desde quando
as coisas se repetem tão sem obra-prima?

Abandonei-me
sem fim
em mim

4.5.12

Última espera


Hoje eu te vi
tão fugidio quanto essas palavras
tão enevoado quanto Avalon
tão.... tão.... tão....

Perdi-me rapidamente nas tuas olheiras
insônias... poemas... solidão... noites...
Mas depois só me lembrei de sorrir
e ficar calada
pra não te incomodar a timidez calculada.

Continuei sentada cuidando do meu futuro.

Não mais me levantarei à toa
ou "se acaso me quiseres"...
Já não digo sempre sim.

Peço perdão
por minhas culpas tão incoerentes
por minhas culpas tão inconsistentes
por minhas culpas tão inconscientes

Te olhei, sorri
mas não te amo
mas não te amo

calma... eu não aguentaria negar-te uma terceira vez
calma... eu não aguentaria dizer-te não mais uma vez
calma... calma... eu ainda estou inebriada do teu perfume estranho
que me invadiu a tantas horas atrás

e que me apunhalou.

sangrei até agora
definhando sem alegria pelas boas novas
mas já...ah... já me recupero



vou escrever sobre outras coisas
abrir a mente para minhas meditações
encontrar-te em meus sonhos proibidos
por satisfações inconscientes
e acordar suada de teus pesadelos
e acordar tresloucada de teus pesadelos
e acordar perturbada
e ficar assim o dia inteiro.

Peraí, vou tomar um gole de café frio.
Peraí, vou ver um filme estranho.
Peraí, vou ler poesia contemporânea.

Peraí...
vou ali na esquina
te esquecer dois segundos

depois parir teus sonhos
de dentro dos meus pesadelos tenebrosos
com flores murchas e mulheres mortas.

Me deixa ir
me deixa descansar de ti
não, não me olha e sorri cínico
que o seu coração não me perdoa
que o seu coração me atraiçoa
que o seu coração... já se foi.

Poesia boa
é aquela que acaba
como se nunca
tivesse sido escrita.

Agora, pode dormir

já escrevi sobre você hoje.

1.5.12

O que eu quiser

?

Rua

Dentro dos galpões sempre tem uma porta de saída;
grande, trancada ou não...

Eu saí pra rua e encontrei meu prédio de novo.

O porteiro ainda estava lá me esperando.

Depois eu volto pros galpões
pra remexer as coisas velhas
pra ver se sai alguma coisa nova

Por enquanto
só me deixa caminhar um pouco pelas ruas do centro de Rio
enquanto chove
só me deixa caminhar sob os arcos da Lapa
enquanto a lua anuncia mais uma noite
esguia
só me deixa caminhar e respirar a cidade


Depois eu volto
embebida em sonhos férteis
em lembranças absurdas
em alguéns que nunca vi
e conheço a vida inteira.

Porteiro, estou indo.
Me espera com a porta aberta.



www.oporteirodekafka.blogspot.com

28.4.12

Mil vezes


Eu sei que você está sozinho agora
que ninguém está aí com você
nessa hora escura
nesse lugar soturno
nesse momento vazio
nessas lágrimas macias...
Vamos lá, me acompanhe os versos
eles vão te fazer companhia
enquanto eu existir
e tiver forças pra te escrever
o que o vento dita aqui no meu ouvido...
Também não estou com você aí
ao menos
não fisicamente
porém, pouco importa,
pois meu coração sempre te procura
pois minha alma sempre te busca
minha voz te chama, minha poesia
é meu canto para você. Só para você.

Aproveita que eu tô aqui
assim tão disponível
até meio submissa e ligeiramente simpática
e olha o céu, procura meus olhares
nessa infinita noite estrelada...
sente meu perfume pelo vento gelado da madrugada....
meu beijo está a tua procura:
vai pra janela, abre as portas,
que eu vou te abraçar e beijar
mil vezes
levada pelo vento até você.

Fecho os olhos e vejo você na minha frente
Feche os seus, suavemente, e vai me ver também
E se eu estiver triste
eu juro que não é tristeza, é uma saudade
tão forte, tão opressora
que eu choro e me abraço a tua imagem embaçada
pelas lágrimas derramadas
sobre este papel....

Feche os olhos
e veja o céu....
Feche os olhos
e sinta as ondas do mar banhar seus pés...

Feche os olhos
e olhe para mim.
Estou aqui.
Sempre estarei.

24.4.12

Rascunho I

"Amor é uma palavra muito forte, eu já te disse. Não é amor, isso vai passar..."

Recanto


Deito-me nas teias finíssimas do sono...
Lembro-me dos teus ebâneos olhos
que estavam a arguir-me
quase agora
sobre algum assunto que não faço ideia...
Rememoro em minha pele
a maciez que mora em teus cabelos
cujos fios negros nunca toquei...
E meus tímpanos vibram na melodia
da tua voz inaudível sob o som desse baixo...

Se me contasses teus sonhos mais loucos,
numa tarde ensolarada...
Se me contasses teus medos mais profundos,
numa noite friorenta...
Se me desses só meia hora
para que eu pudesse me acostumar a seus olhares
tão inquisidores e curiosos...
Como ninguém percebe?

Imagino teus caminhos,
se teus passos são um leve vagar
ou se são rápidos, firmes, fortes.
Imagino tua voz comigo o tempo inteiro
seja o som do teu riso,
seja o som do meu nome.
Imagino a tua presença
vibrante... ocupando cada pedaço de mim
e do ar que respiro dificultosamente
quando estás perto de mim.
Imagino tua pele encostando
na minha pele
o calor da tua
a frieza da minha
e o tremor dos meus dedos a tocar
os teus.

Imagino nossos destinos entrecruzados em algum momento.
E aí, no meio dos sonhos, fico olhando
parada
as casas iluminadas ao longe...
Onde você estará?
Posso ouvir os carros, os ônibus e motos
passarem pela rua aqui em frente...
Onde você estará?
O vento me traz o ressoar de sua voz
no meio de tantos vozerios e risadas...
Onde você estará?

E, talvez, eu possa te encontrar
no meio das minhas lições de latim,
literatura, gramática
linguística...
e, assim, arrumar uma desculpa
para me demorar tanto nelas.

Talvez eu consiga enxergar seus belos olhos
cheios de solidão
no meio da minha insônia
de madrugada.
E por isso, não durmo.
E, por isso, prendo meu sono
embaixo das tramas sutis
de minhas poesias delinquentes.

A ideia de não te ver me atormenta os sentidos.
E fico ouvindo as mesmas quinze músicas de uma banda
que odeio.
Não sinto fome.
Sede? Nem lembro.
Sono.

Ainda não.

Azul-vermelho


Essas nuvens que perpassam seus olhos
me são velhas, e queridas, desconhecidas...
Porém, não se perturbe... não se perturbe...
Pressinto-as vindo, voando além de nossas intuições,
guardando teus segredos imiscuídos
nessa névoa... nessas brumas de seu inverno
de alma
que me confundem os olhos, me atormentam
os sonhos
esses seus prenúncios de algo
que não sei bem o que é.
Podem ser nada. Podem ser tudo.

Essa solidão que tem por moradia teu peito
eu conheço assim, bem de longe, as distâncias físicas
que me mantenho de ti... para nossa própria segurança.
E rio de minhas inseguranças.
E rio de não te ouvir.
E rio de estar tão apaixonada a ponto de não pensar em mais nada:
"a não ser você".
E tudo o que foi dito anteriormente é puro exagero.
E mentira deslavada
de quem não sente absolutamente nada.
Só sabe fingir os sintomas dessa doença
que é o amor... essa úlcera esquisita
que arde, queima e
sangra o coração com um florete dourado
na mão sinistra do caprichoso Amor.

A contragosto admiro tuas lacunas, teus complexos vazios
cheios de ideias, percepções, sentidos ocultos de todas as coisas...
A contragosto admiro teus olhos espelhados no céu de minhas noites em claro.
A contragosto estás em mim, assim tão presente nessas horas fatais
de outono-inverno, qualquer dia, qualquer coisa desperta em mim
em amanheceres coloridos, auroras boreais invisíveis
auroras austrais imperceptíveis brilhando a olho nu
dentro dos meus olhos impassíveis, brilhantes, inauditos, intricados nervos
que se descomunicam entre si... esses segundos fatídicos de felicidade plena
até que me foges, banhando-se em escuridão, sumindo pelas clareiras de minhas florestas mentais
perdidas até de mim mesma.
Eu bem que te queria alegre, em felicidades plenas e muito bem explicáveis.
Toda essa felicidade analisada, sem lacunas. Simples adereços...
que, talvez, não te deixassem tão belo
como essa tristeza que te adorna a testa clara e altiva,
como essa solidão que enevoa teus olhos,
como essa sede de viver que resseca e avermelha teus lábios
que prometem delícias para a escolhida em receber teus beijos de pétala ardente,
como isso tudo que te consome e devora se saber o porquê,
como isso tudo que não te deixou dormir até agora,
como essa coisa que te atormenta a vida
e que te espera após o turbilhão:
a dúvida.

Entretanto, se me paras e me olhas e me falas
peço-te sempre um milhão de desculpas por ser tão fraca
e não resistir
aos mil apelos da tua beleza apolínea...
peço-te sempre mais um milhão de desculpas por não te entender
as palavras
e sucumbir à tua tão... sublime
imagem.

Teus olhos, hoje, me mostraram
essa solidão aspergida nos minúsculos
tons acastanhados que envernizam teu olhar.
Sei que me perco... com todo prazer.
Sei que me arrefecem os sentidos
e se não desmaio
é que me foges com tamanha pressa
e, talvez, um pouco assustado
com minha gritante falta de sutilezas...

Vi seus dedos tocarem levemente
a superfície brilhante de seus fios de cabelo....
Vi seus movimentos perdidos de braços e mãos
(depois explico).

Num primeiro momento,
com uma das belas princesas que te fazem companhia,
tocavas seus próprios cabelos como a pedir um carinho, talvez?
Depois, puseste as mãos sobre os talheres,
sobre a mesa, ajeitando os guardanapos.
E voltou a seus cabelos curtos e negros a mão esquerda, meio perdida
não sei porquê.
Teus olhos são dois faróis:
olhavas para o próprio prato à frente,
para a princesa de companhia,
para mim que te observava insistentemente (sem disfarces),
para o lado de fora.
E pareceu-me que, de tudo,
teus olhos não sorriam como teus lábios
(tentavam)
enganavam a mim e a você mesmo.
Teus olhos mostravam sempre
o caminho da rua, das portas, da liberdade.
Estavas te sentindo tão preso, tão preso
que me angustiava
e eu, ali, quase a gritar:
-Foge!
e eu, ali, quase a chorar:
-Vai ser feliz!
e eu, ali, quase a implorar:
-Vem comigo! Me dá uma chance!
Mas como eu podia? Como eu podia dizer
que te via e te entendia os sinais
tão evidentes?
Ou melhor, como eu posso
ainda hoje
dizer que entendo teus olhares-sinais?

Um tempo antes,
pareceu-me que eras um cometa
a passar pela minha janela
tão rápido, tão fulgurante.
Mas, eu destruí tudo, como sempre.
Mas, creia, meu bem... creia quando me desculpo
tão sinceramente quanto me é possível
sem rir...
Simplesmente, minhas vistas me enganam,
minhas pupilas brilham e brilham e brilham,
minha voz fica agarrada na garganta com medo de sair
e eu não sei o que fazer com as mãos.
E, contigo perto, já não sei que palavras usar,
e muito menos, que idioma é minha língua-mãe.

E só sei sorrir. Como uma tola.
E parecer mais boba do que já sou.
E mais boba,
mais boba,
mais boba...